Memória do Pari
A perseverança de Odette Filpo Ramos
Reprodução em texto da matéria publicada na Gazeta do Pari em fevereiro de 1990.
Ela mora no bairro há 50 anos, tendo residido parte desse período nas ruas Cel. Emídio Piedade e Rio Bonito. Estudou até o ginásio no Colégio Estadual Orestes Guimarães e, quando jovem, trabalhou numa firma de confecções – ofício que exerceu por pouco tempo em função das proibições do pai, uma atitude muito comum das famílias na época.
Casou-se aos 22 anos na Igreja Sagrado Coração de Jesus com Oswaldo Ramos, também morador do bairro, e tiveram dois filhos: Rosane e Ricardo. Hoje, vive numa casa na tranquila e aconchegante vila da Av. Bom Jardim, junto com o marido, o filho, a tia, Vitória, e pela manhã divide seu tempo cuidando do neto Flávio Ramos Zietlow. Com estas informações, tem-se a impressão que a vida de Odette é comum e comparável à de muitas mulheres de sua geração.
Odette Filpo Ramos usou ao longo de sua história uma série de participações em movimentos de defesa dos moradores e do bairro, às vezes colaborando e em muitas liderando. A primeira mobilização de Odette ocorreu em 1967, quando seus filhos estudavam no Colégio Orestes Guimarães.
Na época, o colégio apresentava o problema: o galpão onde as crianças aguardavam o ingresso para as salas de aula era totalmente descoberto, o que ocasionava sérios transtornos, principalmente em dias de chuva. Odette, junto com outras mães, uniram-se com a arrecadação de verbas e conseguiram cobrir o galpão; a partir disto estava sendo constituída a primeira Associação de Pais e Mestres do colégio.
E as ações não pararam por aí; a mesma associação liderada por Odette, contando com a colaboração da professora D. Maria, foram as responsáveis pela construção de um novo prédio para o colégio, que na época estava sediado na esquina da R. Hanemann com Av. Vautier. A Maria, contando com o apoio da Associação, conseguiu levar um ofício para Mário Covas, amigo e esposo de André Sodré, governador do Estado de São Paulo daquela época, solicitando a nova construção; em menos de 5 meses o novo prédio do colégio já era entregue à população.
Odette também participou de movimentos de pais e mestres nos colégios Infante D. Henrique, arrecadando fundos e participando de campanhas do agasalho para compra de materiais e uniformes escolares para as crianças mais carentes, e, no Colégio Frei Paulo Luig, ajudando principalmente na realização das formaturas dos alunos.
Mas o espírito de liderança e a garra de Odette revelaram-se de forma mais concreta no “Movimento Civil de Resistência ao Projeto Tietê”, demonstrando quanto eficiente era a mobilização da comunidade. Para quem não conhece, o ambicioso projeto chamado Parque Tietê foi planejado na gestão do então prefeito de São Paulo, Jânio Quadros, e implicava na desapropriação de 40 mil casas, 200 mil habitantes, 1.500 estabelecimentos comerciais e atingiria uma população flutuante de 150 mil pessoas dos bairros próximos à margem do rio Tietê: Pari, Tatuapé, Vila Anastácio, Barra Funda, Ponte Pequena, Canindé, Bom Retiro, Lapa e Belémzinho.
Odette, fazendo parte da comissão que representava os moradores do Pari, acompanhou de perto todas as reuniões e audiências junto à Prefeitura e à Câmara Municipal de São Paulo, onde pôde contar com o apoio político e legislativo do então presidente da Câmara, vereador Marcos Mendonça, e dos vereadores Walter Feldman, Edson Simões, Luiza Erundina, Arnaldo Madeira, Getúlio Hanashiro, Cláudio Barroso Gomes, Ted Jarbas e Galmo Pessoa, além da imprensa em geral.
Em determinados momentos de impacto, a caminhada de protesto da população e o comício que contou com a participação de 2.500 pessoas. Mas a manifestação que teve maior repercussão, principalmente na imprensa, foi o ato ecumênico realizado no Pari-Canindé, com a presença de aproximadamente 300 pessoas. E enquanto se realizava este ato, no Ibirapuera, o prefeito Jânio Quadros anunciava a revogação do decreto e o restudo do projeto, foi emocionante, comenta.
Além de todas essas ações, Odette revela que de todas tem uma mais especial que dedicou parte de seu tempo: Sabaf – Sociedade Amigos da Biblioteca Adelpha Figueiredo, que ajudou a fundar com outras amigas em 1986 e onde exerce a função de vice-presidente.
Odette orgulha-se da atuação da Sabaf junto à biblioteca, mas seu principal desejo é o de colocar em prática um projeto antigo: a construção de um anfiteatro e de uma área de lazer com muito verde em um terreno ao lado da biblioteca, que foi doado pela prefeitura à Secretaria Municipal da Cultura.
Aliás, esta doação também foi concedida graças aos esforços dos membros da Sabaf junto às autoridades, em particular ao Dr. Wilson Barbosa – na época Administrador da Regional Sé. “Nosso objetivo é criar um local de lazer para o bairro, que neste ponto é muito deficiente. Gostaríamos que com a concretização deste projeto pudéssemos abrir a biblioteca nos fins de semana, assim os pais poderiam trazer as crianças para brincar e ao mesmo tempo poderiam ler alguma coisa na sombra de uma árvore, não seria bom?”
Odette também exerce a função de 1ª Tesoureira da Asampa e, como tal, é comum no dia-a-dia receber as queixas dos moradores. Para ela, a Asampa, por ser uma associação nova, tem que ter como único objetivo a fiscalização das deficiências do bairro e a defesa dos seus interesses.
“Eu acho que ao longo dos anos o nosso bairro teve poucas melhorias, o que é uma pena. Eu considero o Pari um bairro muito doce, todas as pessoas moram aqui não saem mais. Seria maravilhoso se tivéssemos ruas floridas, com árvores de pequeno porte, já que as maiores dificultam a iluminação das ruas e, principalmente, que fossem muito limpas”, observa.
Palavra de Odette
Um sonho – Muitos. Mas principalmente que o Brasil chegue ao lugar que ele merece com o novo presidente.
Uma cidade – São Paulo
Uma cor – Azul
Uma amiga – Muitas
Um país – Itália, a terra de meu avô
Um livro – “Complexo de Cinderela”
Um filme – “E o vento levou”
Uma mania – Falar muito e colecionar receitas de doces e salgados
Uma superstição – Nenhuma
Um político – Juscelino Kubitschek
Uma música – “Café da Manhã”
Um amor – Osvaldo e Flávio
Homenagem a Odette Filpo Ramos – Dia Internacional da Mulher
Rotary Club São Paulo Pari
No Dia Internacional da Mulher, o Rotary Club São Paulo Pari presta homenagem a Odette Filpo Ramos, uma mulher que dedicou grande parte de sua vida ao bairro do Pari, tornando-se uma das principais lideranças comunitárias da região.
Moradora antiga do bairro, Odette participou de diversos movimentos comunitários, educacionais e culturais, sempre voltados à melhoria da qualidade de vida dos moradores do Pari, Canindé e região.
Entre suas principais atuações, destaca-se sua participação em movimentos de pais e mestres, campanhas sociais, arrecadações para escolas e ações comunitárias voltadas às crianças e famílias do bairro. Também teve papel importante na fundação e atuação da Sociedade Amigos da Biblioteca Adelpha de Figueiredo (SABAF), desenvolvendo projetos culturais, educacionais e sociais junto à biblioteca pública do bairro.
Em 1985, criou o Grupo de Donas de Casa do Pari e Canindé, onde foram desenvolvidos programas voltados à saúde da mulher, cursos de artesanato, culinária, costura, pintura e atividades que incentivavam a independência financeira e a melhoria da qualidade de vida de muitas mulheres do bairro. Esse grupo acabou se tornando o embrião para a criação da Sociedade Amigos da Biblioteca Adelpha de Figueiredo.

Odette também foi a primeira presidente do CONSEG Pari, participando ativamente da organização comunitária e da segurança do bairro, além de atuar na Associação Amigos do Pari e em diversas mobilizações comunitárias por melhorias para a região.
Um dos momentos mais marcantes de sua atuação foi sua participação no Movimento Civil de Resistência ao Projeto Tietê, durante a gestão do prefeito Jânio Quadros, quando um projeto urbano poderia desapropriar milhares de casas nos bairros do Pari, Canindé e Belém. Representando os moradores, participou de reuniões, audiências públicas e mobilizações populares, defendendo as famílias da região.
Por sua atuação social e comunitária, recebeu homenagem da Polícia Militar do Estado de São Paulo, pelo trabalho desenvolvido em prol da comunidade do Pari, Brás, Canindé e Ponte Pequena.
Odette Filpo Ramos faleceu em 13 de agosto de 2025, deixando como legado o trabalho social, a defesa da comunidade, a educação, a cultura e o exemplo de dedicação ao bairro do Pari.
Sua história se confunde com a própria história comunitária do bairro, sendo lembrada como uma mulher que trabalhou pela comunidade, pelas famílias e pelo desenvolvimento social e cultural do Pari.
Odette Filpo Ramos não foi apenas moradora do Pari, ela ajudou a construir a história social e comunitária do bairro.

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